sábado, 28 de novembro de 2009

Saudade - Martha Medeiros


Em alguma outra vida,
devemos ter feito algo de muito grave,
Para sentirmos tanta saudade...
Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé , doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa,
Dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe,
Saudade de uma cachoeira da infância,
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais,
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu,
Saudade de uma cidade,
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem estas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar no quarto e ela na sala, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela pra faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
Ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi à consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre culpada,
Se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na internet,
A encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros,
Se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua detestando McDonalds,
Se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
É não saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isso que eu estive sentido enquanto escrevia
E o que você provavelmente estará sentindo depois que acabar de ler.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Grilos

Lá fora os grilos gritam
Será que choram ou cantam?
Lá fora a noite é viva
Será que mostra ou esconde?

Nas coisas insensatas
Nas perguntas incoerentes
Nas coisas inconstantes
Nas perguntas improváveis

Eis que ouço uma voz
Não a defino
Não a escuto
Não a vejo

Eis que enxergo uma luz
Não a toco
Não a busco
Somente sinto

Voz que vem do alto
Luz que vem de dentro
Inexiste. Existiu.

E os grilos?
Continuam chorando...
...ou cantando.

sábado, 31 de outubro de 2009


ESCRITO POR REGINA BRETT, 90 ANOS, CLEAVELAND, OHIO. 

 "Para celebrar o envelhecer, uma vez eu escrevi 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais requisitada que eu já escrevi. Meu taxímetro chegou aos 90 em agosto, então, aqui está a coluna, mais uma vez: 

 1. A vida não é justa, mas ainda é boa.
 2. Quando estiver em dúvida, apenas dê o próximo pequeno passo.
 3. A vida é muito curta para perdermos tempo odiando alguém.
 4. Seu trabalho não vai cuidar de você quando você adoecer. Seus amigos e seus pais vão. Mantenha contato.
 5. Pague suas faturas de cartão de crédito todo mês.
 6. Você não tem que vencer todo argumento. Concorde para discordar.
 7. Chore com alguém. É mais curador do que chorar sozinho.
 8. Está tudo bem em ficar bravo, mas não com Deus. 
 9. Poupe para a aposentadoria, começando com seu primeiro salário.
 10. Quando se trata de chocolate, resistência é em vão.
 11. Sele a paz com seu passado, para que ele não estrague seu presente.
 12. Está tudo bem em seus filhos te verem chorar.
 13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que se trata a jornada deles.
15. Tudo pode mudar num piscar de olhos; mas não se preocupe, Deus nunca pisca, mas é no tempo dele e não no nosso.
 16. Respire bem fundo. Isso acalma a mente.
 17. Se desfaça de tudo que não é útil, bonito e prazeroso.
 18. O que não te mata, realmente te torna mais forte.
 19. Nunca é tarde demais para se ter uma infância feliz. Mas a segunda só depende de você e mais ninguém.
 20. Quando se trata de ir atrás do que você ama na vida, não aceite "não" como resposta.
 21. Acenda velas, coloque os lençóis bonitos, use a lingerie elegante. Não guarde para uma ocasião especial. Hoje é especial.
 22. Se prepare bastante; depois, se deixe levar pela maré...
 23. Seja excêntrico agora, não espere ficar velho para usar roxo.
 24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
 25. Ninguém é responsável pela sua felicidade, além de você.
 26. Encare cada "chamado" desastre com essas palavras: Em cinco anos, vai importar?
 27. Sempre escolha a vida.
 28. Perdoe tudo de todos.
 29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.
 30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo.
 31. Indepedentemente de a situação ser boa ou ruim, irá mudar.
 32. Não se leve tão a sério. Ninguém mais leva...
 33. Acredite em milagres.
 
34. Deus te ama por causa de quem Ele é, não pelo que vc fez ou deixou de fazer.
 35. Não faça auditoria de sua vida. Apareça e faça o melhor dela agora.
 36. Envelhecer é melhor do que morrer jovem.
 37. Seus filhos só têm uma infância.
 38. Tudo o que realmente importa, no final, é que você amou.
 39. Vá para a rua todo dia. Milagres estão esperando em todos os lugares.
40. Se todos jogássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos os de todo mundo, pegaríamos os nossos de volta.
41. Inveja é perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa. 
42. O melhor está por vir. 
43. Não importa como vc se sinta, levante, se vista e apareça. 
44. Produza. 
45. A vida não vem embrulhada em um laço, mas ainda é um presente "

ESCRITO POR REGINA BRETT, 90 ANOS, CLEAVELAND, OHIO. 


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Já Houve Sonho



Jaz em meu peito o tempo
  risonhas horas atentas
  aos desejos insensatos acato
  carinhos coloridos por horas


Havia uma paz sem demora
  pensamentos vizinhos
  intensas telepatias
  nos olhos que se tocam


Saudade sentida em foz
  de entranhas algozes
  cantos de encantos no alto
  recanto do corpo, antologia

Entre versos

Pensando estou
Numa noite repleta de som
São doces as palavras de amor
Na música há encantamento
Se me perguntas:
- Que ouves?
Direi sem demora:
- Meu coração nessas letras.
E se o tempo passa
Nem ao certo percebo
Pois aqui fico te vendo
Entre versos e sonhos
Sonhados e vividos

Os Degraus


Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...



(Mário Quintana)

Amor meu

Aqui, na solidão, eu te vejo... De olhos fechados... De pensamentos cruzados... Das coisas que vivemos... Das coisas que queremos... Eu te amo! E assim... de leve... Incessantemente de busco. Nos meus sonhos eu te encontro. Nas alucinações eu te toco. Em cada momento... eu viajo. Você... meu amor... Pedaço do meu corpo... Parte de minha alma... Caminho do meu coração... Não te ter... é uma angústia... Mas quando eu te toco, tudo se afigura. Vejo, sinto, beijo, amo... Deliro de alegria... O prazer me inebria... E tu... amor meu... É tão meu, que ninguém me tira. Te abraçaria por horas Te beijaria por anos E nas batidas dos nossos corações entrelaçados Enfim entendo, que não há momento tão nosso... ...e que nada pode ser maior.

Os Poemas


                                          Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso 
nem porto; 
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes 
que o alimento deles já estava em ti...


(Mário Quintana) 

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Amor — pois que é palavra essencial

Amor — pois que é palavra essencial
comece esta canção e tudo a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma a expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta à origem
Dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
 
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Recado

"ESCREVO PORQUE ENCONTRO NISSO UM PRAZER QUE NÃO CONSIGO TRADUZIR. NÃO SOU PRETENSIOSA. ESCREVO PARA MIM, PARA QUE EU SINTA A MINHA ALMA FALANDO E CANTANDO, ÀS VEZES CHORANDO..." 
(CLARICE LISPECTOR)





escrever nem sempre tem razão, nem sempre tem endereço...
escrever é arte, é vida...
é meu jeito de dizer que vivo...





Autopsicografia 



                                    



O poeta é um fingidor. 

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente. 



E os que lêem o que escreve, 

Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão, 
Esse comboio de corda 
Que se chama coração.



(Fernando Pessoa)